Alguns dias atrás, li um artigo no jornal The NEW YORK TIMES, com o título “Escola de mandarim”, contando uma bela história de uma menina que nasceu nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em um bom nível de mandarim. Como a maioria da segunda geração de chineses, incluindo a daqui no Brasil, ela resistia muito a estudar mandarim, ao ponto de parar o curso por sete anos e pensar que foi um grande alívio. Muitos casos parecidos já passaram por mim durante os mais de 10 anos. A história dela me lembrou dos meus alunos que tiveram êxitos e também de muitos casos fracassados. Gostaria de compartilhar algumas experiências que acho poder ajudar tanto alunos quanto professores.

 

Primeiros alunos

 

Em 1996, comecei ensinar, sem nenhuma experiência, meu primeiro filho de 4 anos. Dois anos depois, quando o segundo menino nasceu, já sabia um pouco mais como passar ideias para outras pessoas. Nos primeiros 10 anos, também ajudei amigos que foram para China. Eu nunca pensei que, um dia, me tornaria um professor profissional de mandarim. Lembro muito bem que, na época de pós-graduação do curso de medicina, era obrigação dar aulas para alunos de nível mais baixo na faculdade. Eu temia tanto dar aulas que acabei pedindo ao meu mentor que me aliviasse desta minha obrigação; e ele atendeu meu pedido. Olhando para trás, realmente não devia feito aquela decisão.

 

Naquele período, não vi muito êxito nos meus alunos. Os amigos que foram para China ficaram 4 anos e voltaram. Com o passar do tempo, gradualmente, esqueceram o conhecimento que eu passei a eles. Meus filhos continuaram estudando, lentamente, todos os dias, sem muito resultado. Até que, um dia, eu me surpreendi ao encontrá-lo lendo um livro em mandarim! Era o famoso conto de fadas de Anderson. Desde então eu parei de ensiná-lo, porque ele já podia caminhar sozinho. Anos depois, num aniversário meu, fiquei muito emocionado quando recebi do meu filho um cartão no qual escreveu uma poesia em mandarim! Foi muito gratificante saber que toda a dedicação valeu a pena. Então, aprendi minha primeira lição: não desista, o resultado virá!

 

Uma mudança inesperada

 

Em 2006, época em que eu trabalhava como representante de material elétrico e alimentos complementares, certa noite eu recebi uma ligação. Quem ligou foi um amigo que estudava na Poli-USP e também dava aulas na Escola Mandarim (uma escola do idioma mandarim, bastante famosa). Ele me perguntou: Você não quer experimentar trabalhar como um professor de mandarim? Aqui está precisando de professores!

Foi uma surpresa e um desafio ao mesmo tempo; por um lado, meu negócio não estava indo bem e eu precisava de outra oportunidade; mas, por outro lado, ensino não era a minha praia, ainda me lembrava de como tentei de tudo para fugir de dar aulas na faculdade!

Fui fazer a entrevista na escola e dar a aula de teste, onde os ouvintes eram os sócios da escola. Essa foi a primeira aula formal na minha vida! No final correu tudo bem. Na primeira aula com meus alunos, eu senti um medo enorme (o que não aconteceu na aula de teste), minhas pernas tremiam, embora já tivesse recebido o treinamento de como usar o material didático; sentia dificuldades para continuar a lecionar a aula mesmo tendo usado todos os métodos que me passaram. Resolvi então usar as ideias que me surgiram naquele momento e levei a aula até o fim. Na saída, a diretora da escola me parou e quis conversar comigo. “Acabou, fiz besteira”, pensei. Hoje já esqueci toda a conversa que tive com ela, a única frase dela que ficou foi: “seus alunos gostaram muito da sua aula”!

 

Um professor profissional

 

Desde então, fui me tornando um profissional na área de educação. Na época, as salas de aula lotavam, principalmente nos sábados. Nos intervalos o corredor ficava cheio de gente tomando café, comendo bolacha e falando frases simples em mandarim. A escola tinha uma excelente estratégia de marketing; ela havia sido entrevistada por quase todas as emissoras de TV. Nos anos novos chineses, fazia propagandas nas festas tradicionais no bairro da Liberdade. Ela também chegou a inaugurar outra unidade e panejava uma terceira. (De fato, quando um negócio está em moda, com um bom pacote de marketing ele cresce naturalmente.) Logo fui convidado para trabalhar como coordenador na parte de ensino e também para ajudar a fazer o material didático.

 

Não demorou muito para eu descobrir que realmente gostava de dar aula. Compartilhava com meus alunos sobre por que eu acho que o trabalho de professor era melhor que o de médico, embora tivesse estudado oito anos de medicina: todas as vezes que o professor via seus alunos, ele sempre sentia um progresso nos estudos deles, algo que dificilmente aconteceria com meus pacientes se eu continuasse trabalhando como um médico. Minha área de estudo foi Imunologia de câncer, mas minha mãe faleceu por causa de melanoma, um tipo de câncer cujas células eu usava para concluir minha tese de mestrado; quer dizer, três anos de curso especializado não ajudou nada no caso da minha mãe, o que foi uma tristeza total! Um médico dificilmente verá um paciente de câncer recuperar completamente, geralmente a tendência é só piorar.

Ensino de mandarim era e ainda é um trabalho imaturo comparado com outros idiomas como inglês ou espanhol. A moda trouxe muitos alunos, porém, um bom marketing não garante um bom serviço, fato que eu logo descobri. “Mandarim não é difícil, mas é bem diferente!”, eu dizia no meu blog, alguns anos depois de trabalhar na escola. Esse idioma, no início, era uma coleção de figuras chamadas pictogramas, que evoluíram durante milhares anos com simplificações e tornaram-se a escrita de hoje. A gramática dele é muito simples (a gente fala que quase não há gramática se comparada com a do português).

A primeira dificuldade para alunos é a pronúncia. Os estrangeiros não sabem o som de cada símbolo (ideograma) a não ser pelo sistema fonético chamado Pinyin. Os iniciantes sentiam muita dificuldade quando estavam aprendendo pronúncia e escrita ao mesmo tempo, era como se fosse estudar dois idiomas juntos. Na verdade o Pinyin não é difícil mesmo que ele tenha cinco tons que nenhum outro idioma tem. Geralmente os alunos podem dominá-lo em dois a três meses. O problema é quando os alunos estão bem com o Pinyin, mas a grande maioria não quer saber mais nada sobre a escrita que realmente demora a aprender, sendo que essa parte é a principal da língua chinesa. Pinyin é como uma muleta que ajuda uma pessoa levantar-se e caminhar lentamente, mas quando chega a hora de andar rápido ou correr, a muleta atrapalha cada vez mais do que ajuda; cerca de 60%-70% dos alunos desistem de estudar mandarim nessa fase. Fora da Escola Mandarim, em outras escolas de idioma de franquia onde eu visitei e trabalhei, a situação é parecida ou pior, e algumas escolas só tem Pinyin no curso inteiro.

Os alunos que superam esse gargalo enfrentam outra dificuldade: a falta de professores que realmente gostam de dar aula. No início, existiam bastantes pessoas com bom nível de chinês na área de ensino, mas não durou muito tempo para eles entrarem em outros ramos profissionais como turismo e grandes empresas multinacionais. Os que sobraram na escola e continuaram ensinando eram professores mais jovens e falavam menos mandarim. Conversei várias vezes com a diretoria da escola sobre isso, mas não obtive muita atenção. Desde então me tornei um professor comum, não mais coordenador, e continuei assim até que, nesse ano, a escola encerrou as suas atividades. Foi uma pena!

 

Buscando crescimento no ensino

 

Eu fui educado até a pós-graduação na China. Ao contrário da maioria dos casos, o meu grande problema não era mandarim, e sim o idioma local, o português. Gastei muito tempo estudando, lendo, ouvindo, mas o resultado vinha muito lentamente. No final, percebi que o meu nível de português seria limitado para sempre se eu não alcançar o nível de ensino médio no Brasil. Foi um grande desafio! Isso significava que precisaria estudar matemática, física, química… outra vez, só que em português. Foi muito difícil tomar essa decisão. Depois de muitas horas de dedicação, no ano 2014, passei na prova de ENEM com nota de redação de 800 pontos. Foi um processo árduo, mas valeu a pena!

Quando entrei na Escola Mandarim, o professor que me entrevistou disse que não precisava ter um bom nível de português, bastava ter conhecimento suficiente do mandarim. Isso não é verdade, não importa qual o nível de mandarim a ser ensinado, dominar bem os dois idiomas é fundamental. Além disso, a experiência de vida na cultura chinesa também é essencial: os oito anos que passei na faculdade de medicina contribuíram muito para as minhas aulas, isso é algo que eu não esperava. Hoje, posso compartilhar com meus alunos, em mandarim, sobre a língua chinesa, cultura, medicina, nutrição, economia internacional, política, finanças… O trabalho de ensino tornara-se uma atividade prazerosa.

 

O êxito do esforço

 

Sempre fico triste de ver muitos alunos desistirem sem obtiverem o resultado que desejavam. Como eu disse antes, o ensino de mandarim é um trabalho novo, não há muita experiência acumulada do passado. Durante 20 anos, tentei inúmeras ideias diferentes para melhorar o ensino e colecionei quase 100 vezes mais volume de material didático se comparado com todas as escolas de idioma. Hoje, posso dar aula de qualquer nível em qualquer momento sem precisar preparar antes da aula, e os alunos saem das aulas satisfeitos. A duração do curso que eu ministro é um terço e até mesmo um quarto da do mesmo curso feito em outro lugar. Desenvolvi um método específico voltado para o teste HSK (teste oficial de proficiência de mandarim), com o qual alunos, começando do zero, podem tirar uma nota boa em 4-6 meses; alguns chegaram a pular o teste do primeiro nível e mesmo assim obtiveram uma excelente nota no segundo. Meu primeiro aluno passou no simulado de último nível de HSK com facilidade, acertando mais de 80% das questões. Um aluno que estudou comigo por mais de nove anos tornou-se a representante no Brasil da maior advocacia chinesa. Ainda outro aluno me emocionou quando vi que ele gostou das aulas sobre a doutrina de Confúcio, mesmo na época em que fazia quimioterapia e mesmo logo depois de uma grande cirurgia. As aulas para ele tornaram-se um recurso de combater doença.

O fato verdadeiro é que, nesses 20 anos, eu aprendi muito mais com meus alunos do que os ensinei. Espero que todos os professores possam achar o mesmo prazer que sinto constantemente durante seus trabalhos, e que todos os seus alunos possam obter o resultado que desejarem.

 

 

 

Anúncios